Promessas do “fim da história” não se cumpriram
Queda do muro de Berlim não atendeu as expectativas por um mundo melhor
Por Marina M. Zenun
Colabarações de Laíssa Barros e Anna Carolina Pinheiro Cardoso
Há 20 anos, o muro de Berlim, o maior símbolo da Guerra Fria, desmoronou, e com ele a União Soviética, a superpotência que emergira como inimiga visceral dos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra. Após décadas de uma rivalidade ideológica e política, característica marcante da segunda metade do século XX, os acontecimentos de 1989 geraram uma onda de euforia que varreu o Ocidente. Na época, diversos especialistas apressaram-se em vaticinar que a força do grande vencedor era tamanha, a ponto de o neoliberalismo não encontrar nenhum outro forte rival capaz de fazer real oposição ao capitalismo “até o fim dos tempos”. Um dos grandes símbolos do período foi o cientista político norte-americano Francis Fukuyama, que chegou a declarar o “Fim da História”. Em uma análise retrospectiva, o mundo feliz prometido por muita gente não floresceu e vários muros ainda não foram destruídos.

Populares participam das comemorações pelos 20 anos da queda do "Muro da Vergonha" em Berlim. Foto Getty Images
Os Estados Unidos, maior defensor do liberalismo econômico e da democracia liberal, tem um muro separando o estado da Califórnia do México, a fim de evitar que mexicanos busquem empregos melhores nos EUA. No Oriente Médio, em 2002, Israel iniciou a construção de uma muralha de concreto, separando-o da Cisjordânia (Palestina). Segundo o governo israelense, o objetivo é conter o terrorismo palestino. E sob a alegação de conter a expansão de moradias em áreas florestais, o Rio de Janeiro está construindo paredões ao redor das favelas. Duas décadas após a destruição de um dos maiores pilares segregacionistas do mundo, muros ainda continuam sendo utilizados para isolar populações. Contudo, nas comemorações da queda do muro de Berlim realizadas no último dia 31 a atual existência de políticas separatistas similares não foi mencionada. O sistema capitalista, que no passado tanto criticou a construção do muro pelos soviéticos, repete o mesmo erro hoje. Isso sem mencionar as barreiras sociais invisíveis.
A carência do sistema é observada facilmente. Recentemente, os Estados Unidos foram protagonistas da grave crise econômica originária de um mercado com fiscalização quase nula. E contra o princípio liberal de que o mercado caminha por si só, o governo americano precisou injetar milhões de dólares em empresas privadas para tentar salvá-las da falência. Os efeitos do colapso foram suavizados paradoxalmente pela China que, ao contrário dos EUA, possui, desde os tempos da Guerra Fria, um sistema comunista e autoritário. Todavia, nas últimas décadas, o país tem optado por uma abertura comercial controlada. Hoje, a economia chinesa é uma das que mais crescem no mundo, aproximadamente 10% por ano, mesmo após a crise. Os EUA cresceram somente 2,4% nos últimos meses. Contudo, o desenvolvimento do país asiático é questionável, pois se dá a partir de uma ditadura e a desigualdade social, utopia socialista, é gritante. A falta de liberdade, a miséria da população, principalmente no campo, e a poluição ambiental são grandes problemas do gigante econômico.
Tanto o modelo americano quanto o da China são falhos. O primeiro desconsidera uma plena atuação do Estado; o outro leva ao extremo o controle estatal e ambos não conseguem diminuir a desigualdade social. Para Paulo Soutto Mayor, coordenador do curso de Ciências Socias da UNIFEOB (Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos),

O vertiginoso crescimento da economia chinesa não tem sido suficiente para resolver os problemas sociais do país. Foto: Newscom
a falha do neoliberalismo pode ser explicada devido às falhas na estatalidade. “Quanto ao neoliberalismo, o próprio Fukuyama, recentemente na revista ‘Foreign Affairs’, especializada em política internacional, fez uma revisão de seu ponto de vista e afirmou que o problema da organização dos países é a estatalidade, ou seja, a formatação institucional a partir de uma burocracia eficiente e meritória”.
Como disse Soutto Mayor, em entrevista à Folha da Foca, “a história não acabou e nem as ideologias”. Talvez, o próprio inimigo recente do capitalismo seja ele próprio, pois os alicerces considerados adequados pelos idealizadores do sistema não são suficientes para suprir todo o meio político-econômico e principalmente as necessidades sociais tão díspares nos países. O socialismo que ainda possui adeptos no mundo todo está mais “light”. Segundo o professor Mayor, “os partidos comunistas, com exceção da China e de Cuba, estão jogando o jogo da democracia liberal”, mas as ideologias desses dois países reprimem o individual e são marcadas, mais que o seu adversário, por ditaduras. Portanto, ele não apresenta real perigo à estrutura capitalista. Por outro lado, o sistema quase unânime deixa a desejar. Para os defensores do modelo, é preciso aperfeiçoar o capitalismo.